terça-feira, 7 de agosto de 2012

Série - correndo com minimalista: Parte 3b – Aterrissagem dos Pés

A aterrissagem dos pés talvez seja a questão mais discutida depois dos tênis. No mundo da corrida, existem basicamente três tipos de aterrissagem entre os corredores: a aterrissagem com o retropé ou calcanhar (rearfoot strikers - RFS), a aterrisagem com o médiopé (midfoot strikers - MFS) e a aterrissagem com o antepé (forefoot strikers - FFS). Elas podem ainda ser subdivididas, mas todo corredor pertence a uma dessas categorias. A grande maioria as pessoas quando caminham aterrissam com o calcanhar, porém eu mesmo já percebi que há algumas que caminham aterrissando com o médiopé e o antepé.


Como os nomes sugerem, a RFS é quando você pousa com o seu calcanhar, transitando o apoio para o médiopé e em seguida para o antepé onde o corre a impulsão. Na MFS você pousa com o médio pé e transita para o antepé. E, finalmente, no FFS a aterrissagem é feita sobre as bolas dos pés e rapidamente impulsionada pelo antepé.

Daniel Lieberman, professor do Departamento de Evolução Biológica Humana da Universidade de Harvard (e também corredor) e outros três colegas colheram dados de força empreendida durante as pisadas, com pés descalços e com tênis de amortecimento. Foram filmados corredores norte-americanos que correm com e sem tênis, e adolescentes quenianos da região do Rift Valley (o celeiro dos corredores de longa distância do Quênia) que nunca haviam calçado tênis. Foi observado, por exemplo, que os adolescentes quenianos que corriam descalços durante todas suas vidas são tipicamente MFS ou FFS enquanto os corredores que usaram sapatos por todas as suas vidas são mais propensos a serem RFS.


foto de um adolescente queniano que nunca usou sapatos na vida.

Outro aspecto do seu estudo é em relação ao impacto que cada tipo de aterrissagem gera sobre o corpo. A partir das imagens abaixo, podemos ver onde e como o impacto é sentido a cada passo que damos durante a corrida.



O tipo de resultado obtido pelas medidas criou polêmica e debate entre os minimalistas e maximalistas. A maioria das grandes empresas de calçados e maximalistas como Sally Edwards (no hall da fama do Triatlo) acreditam que o amortecimento colocado sobre o calcanhar ajuda a absorver o impacto no início da transição. Isso pavimentou o caminho para maioria dos sapatos vendidos nas lojas. A partir daí os tênis evoluíram e, mais tarde, foram equipados com tecnologias para evitar o excesso de pronação; ajuda na transição; ou até mesmo auxílio no impulso. Alegava-se que os tênis modernos ajudavam os corredores a prevenir lesões, apesar da falta de evidência concreta desde os primeiros calçados modernos fabricados a partir da década de 1970.

ASICS Gel-Kinsei – um dos tênis mais avançado tecnologicamente.

Minimalistas, por outro lado, afirmam que os tênis modernos incentivam uma corrida pouco eficiente devido ao estímulo à aterrissagem com o calcanhar. Se os corredores simplesmente aprendessem a correr eficientemente com o mediopé/antepé, não haveria necessidade de amortecimento espesso na região calcânea devido a ausência de impacto transitório, pois os pés têm a capacidade natural de dispersar todo impacto de forma eficiente.

Altra Instinct – um dos mais novos lançamentos do mercado minimalista com drop zero.

Então qual aterrissagem é a mais eficiente? Pra mim seria a transição do mediopé até o calcanhar (retropé) voltando para o médiopé. Como de fosse uma criança brincando de futebol. Posso dizer de forma inequívoca que a aterrissagem com o médiopé é a mais eficiente e segura. Aqui está uma explicação de que como a maneira de aterrissagem afeta as seguintes condições:      


  • Velocidade: em geral, quanto mais você corre, mais você utiliza a aterrissagem com o antepé. Assista Usain Bolt ou Tayson Gay e você vai ver que eles usam exclusivamente os dedos. Ou pegue uma corredora de meia distância como Zola Budd (que, aliás, é dona do recorde mundial nos 2000m correndo descalço) e veja como ela corre com o mediopé por todo o percurso.


clique na imagem para ver o vídeo

O princípio é simples: quanto menos tempo seus pés ficam em contato com o solo, mais rápido você vai correr. Claro que isso depende de uma série de outros fatores como a frequência das passadas e a postura do corpo. Além disso, em distâncias mais longas, a física muda um pouco os efeitos de velocidade e eficiência.

  • Eficiência: embora tenha sido observado que quem aterrissa com o calcanhar passe mais tempo em contato com o solo do que a aterrissagem mediopé/antepé, pressupõe que todas as outras coisas são iguais (como a frequência da passada), entretanto, tomando o tempo de contato com o solo, a aterrissagem com o mediopé/antepé são mais eficiente.
  • Lesões: não houve nenhuma evidência clara de que as lesões foram mais frequentes em quaisquer umas das formas de aterrissagem. Também há falta de evidências que comprovem que os tênis fortemente amortecidos tenham diminuído a incidência de lesão nos corredores.


Isso significa que a mudança para a aterrisagem médiopé/antepé fará de você um atleta melhor? Não necessariamente. Se você está satisfeito com o seu jeito de correr e não se lesiona, então não vejo razão para a mudança. Mas se você está querendo algo novo então vale a pena experimentar a variação. Apenas certifique-se que a transição seja feita de forma suave. Mudar algo que seu corpo está acostumado a fazer gera estresse. Seu corpo é capaz de lidar com estresse, mas muito estresse por um período muito curto irá, quase sempre, lhe causar danos.

Continua - Parte 4

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